14 Maio 2021
O Recife que Desejamos - Por Antônio Campos

O Recife que Desejamos - Por Antônio Campos

Guernica, a famosa de Picasso, retrata a cruel destruição de uma cidade. Para destruir Guernica foi necessário um bombardeio. No Recife, a destruição pode começar, paradoxalmente, por construções. Como as que se anunciam no bairro de Casa Forte. Resultado, mais uma vez, da união dos interesses privados com a benevolência dos gestores municipais.

Além do projeto do Atacado do Presentes, de grande dimensão, impróprio para a área que pretende construir no Poço da Panela, ainda em curso, momentaneamente paralisado, agora, temos em pauta no CDU da Prefeitura do Recife, o projeto Burle Marx Open Mall, no entorno da Praça de Casa Forte. Trata-se de um verdadeiro paredão verde que influenciará no paisagismo da Praça de Casa Forte, entre outros transtornos e inadequações, com reflexos no trânsito já caótico. Estamos no maio amarelo, sendo o tema bastante atual. 

Difícil é entender que a Prefeitura do Recife jamais tenha aberto um maior debate sobre tais empreendimentos com a sociedade, especialmente com a comunidade de Casa Forte e do Poço da Panela, que serão diretamente atingidas. Dá vontade de pedir socorro à Nossa Senhora da Saúde, com sua igreja no Poço da Panela. Os que autorizaram as obras talvez ignorem que ali pertinho está a casa de José Mariano. O mesmo José Mariano que orgulhosamente dá nome à Câmara Municipal.

A omissão de consulta da Prefeitura não se limitou a nada perguntar à Fundação Joaquim Nabuco sobre uma obra que ameaça o patrimônio, pode estrangular as vias e tornar ainda mais difícil o trânsito, o tráfego, o simples ato de viver. Salvo engano, não consultou os que moram e trabalham no bairro de Casa Forte, Poço da Panela e seus vizinhos. 

Casa Forte não se chama Forte por acaso. Nomeia uma batalha. A capacidade de resistência do povo recifense. De enfrentar as agressões que sofre a cidade. E não foram poucas, ao longo da História. Agora, trata-se de impedir construções que podem afetar o bem-estar de uma comunidade que, mesmo não sendo ouvida pela Prefeitura, quer continuar decidindo o seu próprio modo de viver. Bucólica e altivamente. 

Há males que vêm para bem? No caso deste, pode servir para que os recifenses comecem a discutir o querem e merecem da cidade. Qual o Recife que desejam. De preferência, sem monstrengos urbanos. 
Se já não dá para corrigir os erros do passado, ainda é possível evitar os do presente que comprometerão o futuro. Isto começa por um planejamento responsável, sério. Por amenizar o caos e não aumentá-lo. Se o Recife não soube como outras cidades crescer, se expandir para fora, que ao menos cesse o seu próprio estrangulamento.

O complexo arquitetônico e histórico campus Casa Forte é de conhecimento público, em procedimentalização de tombamento. A Praça de Casa Forte também. Nem isto nem qualquer outro assunto ligado ao patrimônio material ou natural fez a Prefeitura analisar com mais cuidado o perímetro de influência da obra. Nenhuma visita de técnico, de engenheiro. Nenhum pedido de informação.

Ninguém ama o que não conhece. Quem conhece o Recife não pode ficar parado enquanto começa o ruído do bate-estaca que pode tornar infernal sua vida cotidiana. Que pode piorar o trânsito, afetar a vida de diversas maneiras.

Ao prefaciar o livro já clássico de Jane Jacobs, Morte e vida das grandes cidades, o professor Manuel Delgado afirma: “Esse é o panorama atual: centralização sem centralidade, renúncia à diversificação funcional e humana, deportação massiva de moradores para ser suplantados por outros de maiores posses, imposição de equipados pesados e desastrosos que se amparam em álibis enobrecedores (...) dinâmicas que desembocam numa dissolução do urbano em uma mera urbanização, interpretada como submeter-se incondicionalmente aos imperativos do mercado da construção ou do turismo ou às exigências políticas em matéria de legitimidade simbólica”. 

A situação do Recife é muito pior do que isso. Sonhamos com uma cidade melhor. Sem construções destrutivas. Precisamos começar agora a tornar a cidade que queremos uma nova realidade. Um amplo e democrático fórum sobre a cidade deseja precisa ser iniciado. Precisamos debater e aprofundar empreendimentos como o do Atacado dos Presentes e do Burle Marx Open Mall, especialmente quanto as suas localizações. Não somos contra o desenvolvimento e empreendimentos, a questão é o local de suas edificações e consequências no entorno. Há lugares mais propícios. Estaremos nesse debate. E dizemos, parafraseando o grande poeta Carlos Pena Filho: é dos sonhos de homens e mulheres que uma cidade se reinventa. 

Antônio Campos
Escritor, Acadêmico e Presidente da Fundação Joaquim Nabuco
Maio de 2021