28 Outubro 2019
Teve poesia na feira livre de Arcoverde

Teve poesia na feira livre de Arcoverde

Neste sábado, penúltimo dia da 3ª edição da Feira Literária do Sertão (Felis), a programação começou às 10h, com intervenção poética no meio da feira. Entre o colorido das barracas de frutas, verduras, artigos para casa e roupas, violeiros, cantadores e poetas exibiram a arte da oralidade tão presente na cultura local, mas quase nunca associada a um evento tão identitário de uma cidade quanto sua feira semanal.  

Preservar a oralidade, a tradição cultural, aliás, é tema desta edição da Felis: Literatura- preservação & memória. A feira é realizada pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) em parceria com o Coletivo Cultural de Arcoverde (Cocar). Um outro tipo de poesia, mais urbana, interagiu com a poesia sertaneja na noite do mesmo sábado. O poeta Miró da Muribeca fez uma performance poética na noite agradável do Sertão, região com a qual possui intimidade e amizades poéticas. 

“Minha poesia é mais urbana mas o lirismo é o mesmo”, diz Miró, que acabou de ser homenageado pela 14ª edição da Balada Literária, na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. E daqui a poucos dias o poeta lança seu primeiro livro infantil, Atchim! (Cepe Editora), durante a 5ª edição da Feira Nordestina do Livro (Fenelivro), que acontece de 30 de outubro a 3 de novembro, no Centro de Convenções, no Recife. “A poesia é o que você vive. 

No Recife, não sei porquê, não está acontecendo mais um movimento de poesia. Mas no Sertão é mais verossímil. Há um lirismo do qual eu gosto muito porque é denunciativo, declara o desamor sobre esse mundo que não se quer mais”, compara Miró. Durante a declamação, não faltaram menções a Arcoverde, ao ídolo Carlos Drummond de Andrade e ao amor, com muitos toques de humo. 

Mais cedo, no início da tarde, a jornalista Marileide Alves, finalista do Prêmio Jabuti 2019 - considerado um dos mais importantes prêmios de literatura do País - com o livro Povo Xambá resiste: 80 anos de repressão aos terreiros de Pernambuco, editado pela Cepe. Marileide conversou com o público que foi até a Praça Winston Siqueira com o sol ainda alto sobre a obra e o trabalho de resistência do povo Xambá. “É um livro para marcar posição política. Concorrer ao Jabuti é uma felicidade para todo o povo negro do estado brasileiro. 

O terreiro xambá só resistiu graças às mulheres, que guardaram a cultura a partir da religião. Em 1938, o governo fechou as casas de terreiro durante 12 anos, e tudo o que foi transmitido para as gerações seguintes ocorreu através da oralidade, por quem sempre cultuou os orixás”, conta Marileide, ressaltando a luta diária de sobrevivência do povo xambá em meio ao preconceito.

“A constituição não trata das religiões de matriz africana. Muitos terreiros são ameaçados, apedrejados, e muitos de nós quando estamos com nossas guias e nossas roupas também somos agredidos”, lamenta.

Quando o sol caiu e a noite trouxe o ventinho agradável sertanejo, o jornalista e antropólogo Bruno Albertim e o chef César Santos bateram um papo sobre o quanto a comida revela a identidade de um povo, principalmente no caso do Nordeste. “Temos uma cultura patrimonialista muito recente mas o bolo de rolo e o bolo souza leão já receberam o título de Patrimônio Imaterial da Cultura”, ressaltou Bruno. 

“Não existe alta gastronomia. Existe boa comida. Não há oposição entre alta gastronomia e cozinha rústica. Agora a dicotomia é a gastronomia e cozinha industrializada”, avisa o chef César Santos, reconhecido internacionalmente por usar ingredientes regionais em pratos contemporâneos, como a manteiga de garrafa, o queijo de coalho e o jerimum. 

O papo seguinte da noite foi sobre cinema e literatura com o roteirista da Globo Nelson Caldas Filho e a cineasta Kátia Mesel. A conversa arrancou muitas risadas do público quando Nelson contou sobre suas inspirações para roteiros de filme de terror. “Cada um é um pouco autor, nem que seja com uma fofoca. Uma vez acordei e vi um homem no meu quarto. Estava escuro, fiquei mandando ele ir embora e me achei corajoso por enfrentá-lo. Quando acendi a luz vi que era um cabide!” 

Já Kátia, que considera o roteiro uma obra literária, pontuou sua preferência pelos documentários, pela preservação da memória, ainda que sempre acrescido da visão pessoal de cada um a respeito dos fatos. “Mesmo um documentário traz a própria interpretação dos fatos”, pontua a primeira cineasta pernambucana mulher, com 50 anos de carreira.