09 Abril 2019
Os exercícios militares e as fakenews

Os exercícios militares e as fakenews

Por Albert Caballé Marimón

“O Exército pode passar cem anos sem ser usado, mas não pode passar um minuto sem estar preparado”. Na semana passada, em pelo menos duas matérias sobre a queda da aeronave A-1 AMX da FAB em Canoas/RS, durante um exercício de BVR – na Revista Fórum e no site Conversa Afiada –, os autores demonstram desconhecer a frase atribuída ao célebre brasileiro Ruy Barbosa.

De acordo com as matérias citadas, o simples fato da FAB estar realizando um exercício militar evidenciaria a preparação para uma “suposta” invasão à Venezuela. As matérias revelam um claro viés de “oposicão por oposição” e, para quem conhece um mínimo sobre Defesa, fica claro que nenhuma delas teve por objetivo informar um fato, mas apenas e tão somente se aproveitar de um acidente infeliz para transforma-lo em mais uma oportunidade de reafirmar suas posições ideológicas e propagar mais uma fake news.

Ao contrário do que parecem pensar esses autores, é fundamental para as Forças Armadas de qualquer país manter-se em prontidão, e a maneira de conseguir isso é através da prática constante, razão pela qual é absolutamente comum que promovam e participem de exercícios e treinamentos, seja individualmente ou de forma conjunta, quando a Marinha, do Exército e da Força Aérea atuam de forma integrada.

O exercício em questão, o BVR ( do inglês Beyond Visual Range, Além do Alcance Visual, em tradução livre), acontece desde 2012, podendo ser realizado duas vezes no ano. Já contou inclusive com participação da Marinha do Brasil com o Esquadrão VF-1. Na ótica dos autores das matérias citadas, seria o caso de se questionar, estaria a FAB preparando-se desde 2012 para uma invasão à Venezuela?

As matérias não citam fonte alguma, são carregadas de inferências equivocadas e não contribuem em nada – seja para informação sobre o acidente em si, ou para o contexto mais amplo do exercício.

Qualquer um que se dê a um mínimo de trabalho de pesquisa (penso que um jornalista que se preze deve fazê-lo), descobrirá rapidamente que não é de hoje que o Brasil participa de uma série de exercícios e operações militares. Para citar apenas alguns exemplos, temos o BVR (em questão), a CRUZEX, exercício multinacional que na última edição envolveu as três forças e diversos países, a Operação Formosa, Operação Laçador, participações na UNITAS, a missão no Haiti, e uma série de outros.

É através de exercícios e operações que as Forças Armadas avaliam e aprimoram sua capacidade de resposta a situações adversas. É por meio deles que adquirem capacitação para, entre outras coisas, proteger as nossas fronteiras.

Não tem nada a ver com uma suposta invasão à Venezuela, que parece ser tão sonhada por alguns setores de oposição, a fim de justificar suas teorias.

Albert Caballé Marimón é editor do site Velho General.