17 Dezembro 2018
Escolas do Rio se negam a fazer desfile só com R$ 500 mil da prefeitura

Escolas do Rio se negam a fazer desfile só com R$ 500 mil da prefeitura

Faltando três meses para o carnaval, os presidentes das 14 escolas de samba do Grupo Especial dizem ter sido surpreendidos com o corte de R$ 500 mil na subvenção paga pela prefeitura. Conforme publicado no Diário Oficial do município, cada escola receberá R$ 500 mil. Até agora, no entanto, nenhuma parcela foi paga.

Segundo o presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), Jorge Castanheira, o combinado em várias reuniões com a prefeitura é que cada agremiação receberia R$ 1 milhão. Com o corte, dirigentes estão precisando reduzir custos e optar por materiais mais baratos para fazer o espetáculo na Sapucaí.

A Mocidade já está substituindo espelhos, mais caros, por material metalizado. Na segunda-feira será realizada uma reunião de emergência na sede da Liesa para discutir o problema.

— É um momento dramático que as escolas estão passando — desabafa Castanheira, acrescentando que cada escola tem até agora R$ 4, 5 milhões.

O valor inclui a verba do direito de transmissão e a venda de ingressos, com a ressalva de que o valor só chega a este total se todas as entradas forem vendidas. O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado do Rio de Janeiro (ABIH-RJ), Alfredo Lopes, disse que teme uma redução no número de turistas:

— Os problemas criam uma insegurança para quem planeja passar o carnaval no Rio. Outras cidades que não têm estes problemas acabam atraindo as pessoas. Vimos, por exemplo, o crescimento do carnaval de São Paulo no ano passado.

Em nota, a Riotur disse que as conversas realizadas entre a prefeitura e representantes das escolas previam aporte de R$ 1 milhão para cada agremiação. Os recursos que viabilizariam a subvenção seriam divididos entre o município (R$ 500 mil) e o patrocínio da Uber captado pela Riotur (R$ 500 mil).

Crivella recebeu apoio de presidentes de escolas de samba durante o segundo turno da campanha, em 2006: na foto, ele e o presidente da Liesa, Jorge Castanheira Crivella recebeu apoio de presidentes de escolas de samba durante o segundo turno da campanha, em 2006: na foto, ele e o presidente da Liesa, Jorge Castanheira Foto: Reprodução
Castanheira, no entanto, disse que nas reuniões realizadas com Marcelo Alves, presidente da Riotur, e Paulo Messina, secretário da Casa Civil, ficou acertado que seria R$ 1 milhão somente da prefeitura, depois da desistência da Uber em patrocinar parte da festa.

Há uma semana, A Uber comunicou à direção da Riotur que suspenderia o apoio. Com o repasse do aplicativo de transporte de passageiros, cada agremiação da elite da folia recebeu R$ 500 mil no último carnaval, além da subvenção de R$ 1 milhão. A Uber decidiu rescindir o contrato por ordem do setor de compliance da matriz americana, devido à operação Furna da Onça, que acarretou na prisão de Chiquinho da Mangueira, deputado estadual e presidente da Verde e rosa.

— Custo a acreditar que a prefeitura está no caminho contrário ao espetáculo. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) comprova que o carnaval gera recursos. No ano passado, por exemplo, foram cerca de R$ 3 milhões. A festa é um investimento, traz retorno — lembra Castanheira.

Na quinta-feira, a Riotur tentou substituir a Uber, mas não conseguiu. Convidou a 99, outro aplicativo de transportes, para arcar com os R$ 500 mil. Mas a empresa disse não.

O vice-presidente da Mocidade Independente de Padre Miguel, Rodrigo Pacheco, disse que vai propor, na reunião de segunda-feira, reduzir o número de componentes e até o de carros alegóricos. Mas, segundo Fernando Horta, presidente da Unidos da Tijuca, o regulamento não permite a redução do número de carros:

— Não posso também chegar para um componente e dizer que ele não vai desfilar. A situação da escola é desesperadora. Estávamos contando com o subsídio de R$ 1,5 milhão, sendo que os R$ 500 mil eram do patrocínio da Uber. A escola está com dificuldades para pagar os cerca de cem funcionários do barracão. e daqui em diante não temos nem o dinheiro para pagar as contas de luz e de água, que chegam a R$ 30 mil mensais.

Algumas agremiações contam com o faturamento em suas quadras, como é o caso da Portela. Mas o presidente da escola, Luiz Carlos Magalhães, disse que está perplexo:

— Como gestor, preciso saber quanto e quando vou receber. Só tem notícia ruim sobre o carnaval.